Adolescentes ferem e queimam própria pele para aliviar angústia




Adolescentes ferem e queimam própria pele para aliviar angústia

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Entenda por que jovens têm recorrido cada vez mais à automutilação como refúgio da dor emocional.

A angústia é interrompida pela ação da beta-endorfina. O neurotransmissor é uma injeção de ânimo na corrente sanguínea e o cérebro começa a operar num estado de euforia. Os momentos de alívio vêm ao custo de marcas de unha, gilete e fogo pelo corpo. Os jovens não querem se matar, mas substituir a dor psicológica por outra. De 2010 a 2019, foram 556 jovens de 15 a 19 anos atendidos na rede pública de saúde baiana depois de cometerem autolesão. Um número subnotificado se confrontado à realidade das escolas. 




A automutilação ou autolesão é o ato de provocar um ferimento no próprio corpo. O mais comum entre os adolescentes são as feridas nos braços e pulsos e, nos casos mais avançados, queimaduras. O corpo serve até de apagador de cigarro na busca por uma dor alternativa. Todo o processo funciona como um vício em droga. A psicóloga infantil Marcella Siqueira Trinchão explica que a dor também ganha tolerância. Por isso, a necessidade é de se machucar cada vez mais forte e fundo.

“A fala deles é que a dor emocional é diminuída pela dor física. Isso acaba colocando em risco. Muitas vezes pode não haver intenção suicida, mas pode ser precursor”, explica Marcella.

A reportagem ouviu psicólogos, professores, a rede pública de saúde e os próprios adolescentes para entender o que está por trás das autolesões. Os relatos levam à elaboração de um perfil comum: pessoas de 10 a 19 anos, com dificuldades de estabelecer vínculos de pertencimento seja na escola ou entre os familiares. É o caso de uma criança de 12 anos, integrante de uma família de classe média alta de Salvador. 

A menina, quem chamaremos de Larissa, começou a causar estranhamento numa escola particular quando, no calor, aparecia de blusa de mangas compridas. Também despertou atenção pelo comportamento cada vez mais silencioso, com rendimento de mal a pior na escola. No caso de Larissa, o centro da dor era uma relação abusiva com o pai. As histórias se repetem, mudam apenas os personagens.

De tão crítico no ambiente escolar, o tema virou lei em 29 de abril deste ano. Desde então, a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio determina a notificação compulsória de casos de automutilação pelos estabelecimentos de saúde. O presidente Jair Bolsonaro vetou a adoção de uma penalidade a quem descumprisse a política. Hoje, infrações à legislação sanitária estão passíveis de multa que chegam a R$ 1,5 milhão.

As estatísticas, também por isso, não conseguem acompanhar a realidade dos jovens. Não só os casos ainda são camuflados pelos próprios adolescentes, como os professores chegam a ter receio de notificar.

“Às vezes, os professores não notificam por medo de represália. Um dos principais problemas da questão da automutilação são problemas que vêm de casa”, avalia Jamille Dias Carvalho, técnica da Coordenadoria de Inclusão Educacional e Transversalidade da Secretaria Municipal da Educação de Salvador (Smed).

Os casos de quem usa a dor física como um analgésico para a tristeza são discutidos como um problema de saúde pública. “A automutilação às vezes é alternativa mais fácil. A dor que eles sentem na alma é muito maior que o que eles sentem no corpo”, diz Jamile. Especialistas em adolescentes e os contatos mais próximos desses jovens tentam entender como romper o ciclo da dor quando ainda é tempo.

Por trás da automutilação 
Tudo começou com pancadas nas paredes de casa, mordidas no braço, tapas no rosto. Aos 16 anos, Tiago Ferreira, 22, girou pela primeira vez a engrenagem da dor. O então adolescente não sabia, sozinho, lidar com os problemas familiares e de autoestima. A dor física era o único alívio do dia. E como a sensação logo passava, era necessário recorrer aos machucados como quem recorre a uma droga. 

“Queria aliviar a dor dos pensamentos. Cheguei a fechar o braço só com o corte. Normalmente, usava capote [casaco]. Meus pais só descobriram muito tempo depois”, lembra. 

Hoje, Tiago ainda tem nos braços as marcas, já quase imperceptíveis, do passado de automutilação. O empreendedor lembra que como a dor física ficava cada vez menor, pensou duas vezes em suicídio. É o que acontece com a maioria dos jovens. Num hospital particular de Salvador, Marcella atende jovens que, como Tiago, se autolesionaram.

O mais comum é que os arranhões comecem pelo braço, feitos pela unha. Depois, são feitos na virilha, onde é mais fácil esconder as feridas de pais, colegas e professores. As emergências dos hospitais são buscadas quando há risco físico. E como a autolesão, a rigor, não tem intenção suicida, é difícil romper o ciclo e mapear devidamente os casos.

“Em casos em que não ameaça à vida, é indicado que se busque o mais urgente possível um auxílio de psicólogo”, diz a médica Sandra Plessim. 

Sandra se dedica a estudar o mundo da anatomia adolescente, especialidade chamada de hebiatria. O que buscam os jovens é justamente um desvio da dor. “As tentativas de suicídio, na verdade, têm a ver com cessão da dor. É o contrário”, esclarece Sandra. A principal preocupação é como a autolesão pode levar ao suicídio.

A internet é citada como um dos fatores principais do problema. Em 2017, por exemplo, um jogo chamado Baleia Azul desafiava jovens à automutilação. “Existem muitas produções que reforçam, ou dão representatividade de alguma forma, a essa dor”, opina a psicóloga clínica e educacional Mara Raquel Valverde. E como levar os jovens a pedir ajuda?

“É uma ferida aberta, mas a ferida está aberta em outros lugares do corpo. Honestamente, tem muitos contextos sociais doentes, mas tem o contexto que reforça essas condições, que é o contexto familiar conturbado”, diz Mara. 

A autolesão não faz distinção de cor ou classe social. A psicóloga Suely Logo trabalha tanto no Centro de Atenção Psicossocial Infantil Luís Meira Lessa quanto num consultório particular. Nos dois, são atendidos sempre jovens com ânsia por se machucar.

“Cada época é marcada por um modismo de sintoma. Não gosto dessa palavra, mas tem épocas em que um sintoma tem uma visibilidade maior. Esse sintoma tem sido do jovem, em geral”, acredita.  

As formas de perceber quando um jovem recorre à automutilação variam. Mas os especialistas indicam a mais básica de todas as receitas: estar de olhos abertos para perceber quando algo não vai bem. 

Tema de sala de aula
O tema da automutilação retornou à Câmara de Salvador em abril deste ano. O projeto de lei ainda aguarda votação, mas, caso seja aprovado, levará debates sobre o assunto às escolas municipais. Antes, em 2014, a sugestão era que as unidades tivessem equipes com assistentes sociais e psicólogos. A prefeitura não chegou a seguir a recomendação, por questões orçamentárias. 

No dia 1º de agosto, hebiatras, médicos especializados na adolescência, conselheiros tutelares e outros especialistas se reuniram na Casa para discutir a automutilação. O vereador Luiz Carlos de Souza (PRB) foi quem convocou a audiência e propôs os dois projetos. Adolescentes também deram relatos pessoais. O objetivo da lei é fazer com que o debate circule livremente nas escolas.

“Se a escola não puder fazer, terá que abrir um processo de chamamento para as instituições que realizam esse trabalho e estejam interessadas em apresentar um plano de ação”, explica o vereador.

No início do ano, a Secretaria Municipal de Educação começou a reunir os professores e gestores das 435 escolas para encontrar um método de conexão com jovens. A ideia é que, a partir de agora, os coordenadores e gestores das unidades promovam discussões com os mais jovens. “Vem acontecendo gradualmente, já nos reunimos com as 10 gerências”, explica Jamille.

A Secretaria da Educação do Estado afirmou que, desde 2015, promove ações para melhorar a saúde na comunidade escolar, por meio do Programa de Apoio e Assistência à Saúde do Estudante (Programa Acolher). O plano é realizar discussões para ensinar os estudantes a lidar com “situações desafiadores”, oficinas para educar para boas práticas na internet, para evitar o cyberbullying e exibição de material na capital e no interior para discutir a automutilação e o suicídio. 

A expectativa é que falar abertamente sobre a automutilação descortine, aos poucos, os estigmas da dor. 

Como perceber que um jovem se automutila?
1. Arranhões no braço ou outra parte do corpo
2. Marcas vermelhas no corpo
3. Uso de blusas de manga em dias de calor
4. Queda de rendimento na escola
5. Mudança brusca de comportamento

FONTE: CORREIO 24 HORAS



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Categoria: Saúde